Rodrigo Calhau Rodrigo Calhau

Era uma escola muito engraçada, não tinha muro, só sofá na sala…

Albert Einstein dizia, “penso 99 vezes e nada descubro, paro de pensar, e a verdade me vem”. Às vezes, quando temos um problema, ficamos tão focados nele que não vemos mais nada, tudo ao redor fica nublado. Por exemplo: temos que combater a evasão escolar! Putz! Como já pensamos e discutimos isso… E como é difícil resolver. Quanto mais se olha para a questão mais ela se expande e se ramifica e nos escapa. Mesmo dedicando nossa atenção, nada de solução. Interessante é que muitas vezes, quando desfocamos de um problema, as nuvens se dissipam, as coisas ficam claras e a solução aparece.

Ir arrumar uma gaveta quando um problema parece difícil de entender, pode nos ajudar. Ao arrumar o que está fora, arrumamos nossa cabeça? Afora a força da metáfora que reúne esses dois atos, o de arrumar as gavetas e o de colocar as ideias em ordem, pode-se parar para pensar sobre isso também pelo viés de outra figura de linguagem: a metonímia. Há contiguidade entre nós e nosso ambiente.

A influência do clima, aqui na Finlandia, no humor das pessoas é bem notório. O inverno é bastante frio e escuro,  deixa todos mais reclusos, enquanto no versão, com os dias claros e quentes, nos sentimos mais animados e abertos.  Não estamos separados de nossos ambientes, e o modificamos da mesma forma que somos influenciados por ele. Isso ocorre não somente quando estamos arrumando o quarto ou a gaveta, mas também quando vamos para a praia, ou cachoeira, ou para uma boate, um parque de diversões, uma sala de cinema, etc. Uma suntuosa assembléia legislativa, um beco periférico escuro e cheio de escombros, uma catedral, um salão decorado com personagens preferidos de uma criança para seu aniversário são ambientes carregados de significados! Todo ambiente tem muito a nos dizer. O ambiente nos  manda mensagens que podem nos estimular, reprimir, nos intimidar, nos aproximar.

E o ambiente, tão capaz de comunicação, não poderia também educar? Da mesma forma que o ambiente nos estimula nas situações acima, será que ele poderia estimular a educação? Será que poderia estimular comportamentos ou atitudes que julgamos importantes, como colaboração e criatividade? Como o paisagismo, o mobiliário, a arquitetura podem melhorar a educação, motivar mais os alunos, envolvê-los? Essas são perguntas importantes que raramente consideramos. E seguimos com nossos planejamentos como se o ambiente físico não tivesse relação com o ensino. Repetimos o padrão que a indústria mobiliária nada criativa e nada inovadora, mas provavelmente bastante lucrativa, explora país afora. Há um padrão predominante de uso, de “cadeiras estudantis”,  enfileiradas em salas claras, de tons neutros, onde todos se sentam de frente para o professor de quem se espera passe o tempo de sua aula de pé à frente da sala. O que estamos estimulando dessa forma? O ambiente fala muito, e muitas vezes o que ele diz pode atrapalhar.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção quando cheguei aqui foi que a universidade não tinha muros, era aberta. Depois o que me chamou a atenção foi a quantidade de vidros, janelas grandes, tudo transparente e iluminado. Do refeitório é possível ver o que ocorre na biblioteca. Ao passar no corredor vemos o que acontece dentro das salas de aula. Depois reparei que as salas de aula usam móveis diferentes, mesas redondas e, apesar de ainda haver algumas salas com as tradicionais fileiras, outras usam mesas que podem se juntar e separar, permitindo uma flexibilidade nos usos, cadeiras são frequentemente estofadas, e seus tipos não são padronizados, encontramos muito mais de um modelo na sala e até sofás.

Os alunos customizam os ambientes. Reparei que existem muitas coisas pregadas na parede, muita informação visual, posters, vários livros na estante da sala. Há descontração nas salas de aula, isso é estimulado pelo uso dos puffs, cadeiras confortáveis, ambientes para jogos, etc. Você se sente à vontade. Lugares para descançar, fazer esporte, academia, aula de ioga, capoeira, sala de descanço com cadeiras de massagem, etc. Ah, e claro, tem uma Sauna! Tudo dentro da universidade. Por que será? Depois que estudamos muito, temos muitas coisas interessantes para fazer aqui, e que nos deixam prontos para o quê? Para voltar a estudar… Passa-se muito tempo dentro da Universidade. Há tempo e espaço para ‘desfocarmos’ e voltarmos ao foco… Vejam o vídeo que fiz do prédio onde estamos tendo o programa.

Conversamos em posts anteriores sobre a importância da informalidade na educação. Falei das empresas que já possuem espaços de trabalho descontraídos, e sobre como isso impacta na produtividade das pessoas, sobre metodologias como Design Thinking e Scrum, além de empresas de TI como Google e Apple, onde o ambiente é bastante envolvente. Eles são ambientes projetados com esses tipos de preocupação; serem informais. Falamos também sobre como isso é um problema a ser assimilado pela nossa cultura, que desvalorida a informalidade. Essa depreciação da informalidade não deixa de ser curiosa, num país cuja cultura popular é de uma diversidade e riqueza espantosas. A educação está associada claramente à difusão da ciência, mas, também, e talvez em primeiro plano, à difusão de comportamentos formais. Ao menos no Brasil, ainda bem cedo, na escola, o corpo humano é submetido a quatro ou cinco horas por dia de um total desconforto, dificilmente facilitador da primeira associação citada.. Por isso deve ser tão difícil ampliar a oferta do ensino integral… Estar na escola brasileira, dentro do seu modelo tradicional de ensino, é tão ‘duro’ que ninguém aguenta bem um dia inteiro… Colocar puffs, ou as nossas redes, numa escola brasileira, pode ser para alguns uma idéia fútil, uma coisa de vagabundo. O confronto físico, o bem estar não são bem vindos na escola…

Visitei recentemente uma universidade de ciências aplicadas chamada Haaga-Helia. Lá nos contaram que, em seu processo de reestruturação, o prédio foi remodelado, colocando os objetivos da educação no centro do projeto arquitetônico. O espaço foi planejado para atender e melhorar a educação. Toda escolha arquitetônica respondia a uma motivação educativa. Disseram o porque dos vidros: tornar os processos transparentes; dar vida ao ambiente. Ao passar no corredor, as pessoas viam os movimentos  e atividades que ocorriam dentro das salas. Os vidros foram colocados para que todos se percebam.  Corredores estreitos estimulando o contato pessoal? Andando próximas, as pessoas se cumprimentam, se esbarram, se percebem.

Lá os professores compartilham uma sala, e uma cozinha, e um agradável espaço para lanche. A premissa é que, se os professores devem colaborar, interagir e trabalhar juntos, isso também tem que estar inscrito no espaço que compartilham. A sala de professores foi projetada para acomodar bem o professor, para que ele fique confortável e principalmente tenha contato com os colegas de trabalho. Ele pode trabalhar junto, em uma mesma mesa, ou ir para um lugar mais reservado, se precisa produzir sozinho. Vi salas de professores em outros lugares que tem até cadeira de massagem. Achei a ideia fenomenal.  Como não pensamos nisso antes? Segue abaixo um vídeo que fiz com imagens de Haaga-Helia:

Arquitetos e demandantes avaliaram suas questões se colocando no lugar dos alunos e professores, tentando pensar como eles. Existe uma empatia, uma vontade de fazer o melhor para o outro. Eles criaram vários ambientes de socialização, de aula, de trabalho colaborativo, de descanso. A escola foi projetada para acolher. Acho que isso diz muito e deve haver um retorno dessa mensagem. A educação é centrada no aluno de fato, e ele percebe isso em cada ambiente da sua escola. Ele não tem apenas uma cadeira dura como seu espaço reservado.

Tivemos cá uma aula sobre ambiente e estímulo ao aprendizado visual e colaborativo. Vimos as dimensões de um ambiente de aprendizado: Social, Física, Mental e Cognitiva. A social procura organizar o ambiente para estimular a interação e comunicação. A dimensão física busca estimular o aprendizado multisensorial (visão, tato, olfato, audição, etc). A dimensão mental procura motivar os estudantes, inspirá-los para inovar e ter atitudes positivas. Já a dimensão cognitiva se preocupa em como oferecer ao estudante recursos que os permitam conhecer. Fizemos uma atividade sobre isso, em grupos, depois colocamos os resultados em um painel online. Nunca me imaginei como professor pensando nesses aspectos.

No nosso Instituto temos longos corredores sem nenhum mobiliário… Nossos alunos, comumente, sentam-se no chão à espera de um professor que abrirá a sala… Há bancos espalhados pelo Campus, mas a disposição deles é ‘fixa’ e eles são posicionados de modo que não promovem nenhuma conversa… Há belos jardins internos, sem árvores que façam sombra, sem proteção alguma do sol, então acabam por permanecer vazios… Frequentemente ouvimos colegas de outros campus perguntarem onde estão os alunos do Campus? Porque atravessam os espaços e vêem poucas pessoas.

Ora, ou os alunos estão na sala de aula, ou estão no ponto de ônibus indo embora…O Campus não convida a outras atividades… É preciso pensar a arquitetura da escola, e também a arquitetura de interiores da escola, o paisagismo da escola, visando promover a reunião, o bem estar e a descontração das pessoas nesses ambientes… Queremos combater a evasão, mas não discutimos isso de uma maneira mais holística. Nem todos os problemas estão da porta da sala de aula pra dentro… Muitos sim, mas não todos.

Será que se colocarmos vidros em nossa instituição vamos estimular realmente a transparêcia? Será que se tirarmos divisórias as pessoas vão comunicar mais? Será que se tirarmos os muros vamos interarir mais com a comunidade externa? Será que se colocarmos mesas redondas professores e alunos passarão a colaborar mais? Será que se colocarmos um monte de puffs espalhados na escola as pessoas se tornarão mais criativas da noite para o dia? Talvez não seja tão simples.

Tais mudanças, se não estiverem acompanhadas com uma mudança de mentalidade, não pode fazer muita coisa. Não é somente o ambiente que irá fazer com que as pessoas mudem. Se fosse assim seria muito fácil. a mudança do ambiente acompanha a mudança da mentalidade, do modo de vermos as coisas… Pensar um Plano Político e Pedagógico, no entanto, passa necessariamente por pensar no projeto dos ambientes de aprendizado, que, juntamente com outras medidas, podem dar resultados muito interessantes na motivação de alunos e professores. Pode ser um estímulo para uma mudança de mentalidade.

Arrumar uma gaveta não fará seus problemas desaparecerem. Mas arrumar a gaveta pode ser um primeiro passo para estimular outras ações de mudança.

Até a próxima! :)

Bacalhau da Geladeira #14 – Ambientes de Aprendizagem
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Comentários sobre “Bacalhau da Geladeira #14 – Ambientes de Aprendizagem

  • 4 de julho de 2015 em 00:14
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    Taí um ponto importantíssimo!
    No campus serra, é bem comum na hora do almoço a galera ficar conversando sobre o que podia ter no campus ( principalmente quando bate aquele sono..) a gente sempre fala sobre ter uma “sala de redes”, literalmente, uma sala onde houvessem várias redes onde pudessemos deitar e tirar um cochilo depois do almoço, principalmente quando tem aula depois, é quase impossível se concentrar. Em relação ao restante, na minha opinião, eu gosto do local, realmente faltam muitas coisas para ser aquele lugar convidativo, mas me sinto bem estando lá. Você citou sobre essa universidade possuir corredores mas estreitos para que as pessoas se esbarrem, conversem e tal.. Achei muito legal, acho super maneiro isso, esse contato.. eu falo com todo mundo, não tenho muito problema com isso, mas tem gente que não é assim, então aquela empurradinha é válida KKKKK . Tem um jardim entre as salas dos professores, chamo de ” jardim secreto” ( ainda tem gente que nunca foi lá, acredita ? ), é um espaço maravilhoso.. Dá vontade de fazer um pique – nique. Além de ter uma área enorme que ninguém usa, não sei por que, mas seria legal se aumentassem o espaço “verde”.

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